A Revolução do Preço da Energia Solar

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Está acontecendo uma revolução silenciosa. Em Novembro, o Dubai anunciou a construção de um parque de energia solar que produzirá electricidade por menos de 0,06 dólares por kilowatt-hora – um custo inferior ao de uma opção de investimento alternativa, a de uma central eléctrica movida a gás ou carvão.

A central – cuja entrada em funcionamento é esperada para 2017 – é mais um sinal de um futuro em que as energias renováveis substituirão os combustíveis fósseis convencionais. Com efeito, praticamente não passa uma semana sem que haja notícias de um grande acordo para construir uma central a energia solar. Só em Fevereiro passado, houve anúncios de novos projectos de electricidade a partir de energia solar na Nigeria (1.000 megawatts), Austrália (2.000 MW) e Índia (10.000 MW) . no Brasil podemos ver inúmeros anuncios de novas plantas de energia solar e ainda os projetos de Energia Solar conectada a rede (GRID TIE).

 

Não há dúvidas de que estes desenvolvimentos são positivos para a luta contra as alterações climáticas. Mas a principal motivação é a economia e o lucro, porém o meio ambiente ganha com isso, uma vez que uma maior eficiência na distribuição de energia reduz os custos da produção de energias renováveis.

 

À medida que os esforços para melhorar a gestão da eletricidade derivada de fontes flutuantes (aquelas que sao sazonais, eolica, solar etc) vão trazendo mais avanços, o custo da energia solar continua a diminuir. Dentro de 10 anos, será produzida em muitas regiões do mundo a 0,04 a 0,06 Dolar por kilowatt-hora, segundo um estudo recente  do Instituto Fraunhofer para os Sistemas de Energia Solar (encomendado pelo ‘think tank’ Agora Energiewende). Em 2050, os custos de produção terão descido para 0,02 a 0,04 Dolar por kilowatt-hora.

 

Conforme afirma Patrick Graichen, director executivo do Agora, a maioria das estimativas internacionais para a produção futura de energia no mundo não toma em consideração a vitória iminente da energia solar sobre os seus concorrentes de origem fóssil. Uma atualização desses cálculos mostraria um retrato realista dos custos e do impacto da nossa produção e consumo de energia sobre o clima do planeta, revelando a importância das energias renováveis para o desenvolvimento economico e permitindo um melhor uso da infra-estrutura energética.

 

Não devemos subestimar o enorme potencial do sol e do vento para a geração de riqueza mundial e para o combate à pobreza. À medida que a energia solar vai ficando economicamente viável, os países localizados no cinturão solar da Terra (Próximos a linha do equador) poderão desenvolver modelos inteiramente novos de negócios, pois a energia limpa e barata permitirá processarem as matérias-primas localmente, acrescentando valor  antes de exportarem.

 

Ao contrário das grandes centrais eléctricas convencionais, as instalações solares podem ser construídas em meses; além de serem rentáveis, são um meio de resposta rápido a uma procura mundial crescente. E uma vez que as centrais solares podem, regra geral, ser operadas independentemente das complexas redes inter-regionais de electricidade, dão aos países menos desenvolvidos uma forma de eletrificarem as suas economias sem construírem novas infra-estruturas dispendiosas, uma vez que a geração pode ser local sobre os telhados ou espaços disponíveis no local de consumo.

 

As centrais solares podem, assim, desempenhar no sector energético o mesmo papel que tiveram os celulares nas telecomunicações: chegando rapidamente a grandes comunidades  onde no passado não eram atendidas pelo sistema de telefonia, onda as populações eram mais dispersas, sem ser preciso investir nos cabos e nas infra-estruturas complementares que outrora eram necessárias. Na África, 66% da população passou a ter acesso a comunicações electronicas desde o ano 2000. Não há razão para a energia solar não poder fazer o mesmo ofertando acesso a eletricidade.

 

 

É agora a hora de investir na produção de energia solar em grande escala. Para começar, os custos de construção de centrais elétricas movidas a energia solar estão em condições de oferecer preço estável e competitivo por mais de 25 anos. O preço do petróleo pode ter caído por agora, mas voltará a subir. As centrais solares são uma garantia contra a inerente volatilidade do preço dos combustíveis fósseis.

 

Mais importante ainda, o custo de capital é atualmente bastante baixo em muitos países. Esse é um fator decisivo para a viabilidade económica das usinas solares, porque não precisam de grande manutenção mas requerem um investimento inicial relativamente alto. O estudo do Instituto Fraunhofer mostra que as diferenças de investimento de capital são tão importantes para os custos por kWh como as diferenças na incidência de luz solar. A energia solar é atualmente mais barata na nublada Alemanha (40% menos insolação que o Brasil e é o local onde mais se produz energia solar no mundo) do que em regiões ensolaradas onde o custo de financiamento é maior.

 

A quantidade de luz solar que incide num país é impossível de mudar. Mas o custo de capital é algo sobre o qual um país pode manter algum controle. Com uma estrutura juridica estavel e confiavel, oferecendo garantias de crédito no contexto de acordos internacionais, e envolvendo bancos centrais em investimentos de grande escala, os governos podem ajudar a tornar a energia solar mais acessível.

 

Fatores como estes explicam o porquê de as políticas climáticas internacionais se focalizarem cada vez mais não apenas na energia solar mas também noutras formas de energia renovável. Os avanços tecnológicos têm melhorado a competitividade dessas fontes energéticas, em comparação com os combustíveis fósseis. Por isso, os instrumentos que tornam a sua adoção financeiramente mais acessível estão a tornar-se nalgumas das armas mais importantes de que dispomos no combate às alterações climáticas. 

 

Klaus Töpfer, ex-director executivo do Programa Ambiental das Nações Unidas, antigo subscretário-geral da ONU e antigo ministro alemão do Ambiente, é director executivo do Instituto de Estudos Avançados sobre Sustentabilidade, em Potsdam, e presidente ao conselho da Agora Energiewende.

 

Direitos de autor: Project Syndicate, 2015.

FONTE:www.project-syndicate.org

Tradução: Carla Pedro com adaptações da Energia Total

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